terça-feira, 1 de setembro de 2015

A rainha do nada

Ela estava descalça, sentada em uma pedra na beira da praia. Balançava os pés e olhava fixamente um horizonte inexistente. As roupas que usava naquela manhã estavam inadequadas para o frio que fazia. Havia passado a noite ali. Duas garrafas vazias de bebida alcoólica estavam abandonadas na areia.
Tremia. Sentia o vento gelado perfurar todo o corpo. Agora ela fitava uma coloração amarelada distante. Em algum lugar o sol estava visível e escaldante. Seria a última vez que iria torturar-se, mas agora deixaria nas mãos da natureza que tanto apreciava. Iria ficar ali o quanto fosse preciso. Queria ver o corpo diluir-se e aos poucos ser levado pelo vento.
Desejava fazer parte daquele imenso azul, cor que sempre gostara. Só não sabia nadar e não pretendia aprender. Os olhos estavam perdidos em algum mundo que neles existia. Talvez estivessem em todos ao mesmo tempo, criando então um novo mundo, infinito e atemporal.
Pensava que o sentimento que nela habitava naquele momento, que também sentira naquelas últimas horas, era o preço a se pagar pela passagem (sem volta) para um lugar jamais explorado, somente destinado a ela. Ainda achava-se significante demais. Acreditava haver um mundo onde fosse a rainha, mesmo sem súditos. Seria a rainha do nada. Do vácuo. Ordenaria mesmo sem o som se propagar.
A correnteza a direcionava para uma queda mortal. Não se esforçava para remar contra. Mesmo com os olhos abertos, o que via não era o ambiente em que fisicamente estava. Formou-se diante de si uma escuridão que se apropriou de tudo que até então havia visto. O silêncio que tanto prezava agora a perturbava e ensurdecia. Só então percebeu que não havia como respirar. Foi perdendo a consciência...

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