sábado, 2 de agosto de 2014

Pés descalços

Caminho cambaleando pela rua fria e molhada por causa da chuva que caíra. 
As pedras machucam meus pés descalços. 
Observo as fachadas mórbidas das casas antigas e desbotadas.
Não sei para onde irei. 
Simplesmente cansei e resolvi abandonar tudo. 
Mas não tenho nada... 
Só esse corpo cansado e essa alma inquieta, insatisfeita. 
Vejo uma criança sentada na calçada suja de lama, tremendo seus ossos de frio. 
Ela estende a mão na minha direção. 
Meu coração dói, contrai-se no peito. 
Abaixo a cabeça e continuo a me arrastar.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Sofro, pois amo

Sofro, pois amo.
Amo, pois preciso.
Preciso, pois não vivo sem amor.
Não vivo sem amor, pois seria tudo vazio demais.
A vida sem amor é oca, desnecessária.
Não me vejo nesse mundo sem amar, sem sofrer.
Pois amor é sofrimento, é morrer.
Não. Eu não tenho que ser feliz sozinha.
Eu não quero ser feliz sozinha.
Eu simplesmente não seria.
Não faz sentido.
Quando não o tenho
Tento substituir essa necessidade por coisas banais.
Embriago-me com bebidas baratas.
O que quero é amar.
E por sorte, ser amado...

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Harmonia

Eu estou bem
Claro que poderia estar melhor
Mas nas circunstâncias em que me encontro
Dizer que estou bem já é um enorme progresso
Sem lágrimas e sem sorrisos
Sinto-me bem assim
Estou em cima do muro
Em uma perfeita harmonia
Claro que isso não vai durar por muito tempo
A ficha da realidade sempre cai
Mas enquanto estou anestesiada
O que me resta é aproveitar
Até que a nuvem negra volte a pairar sobre minha cabeça

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Labirinto

Estou presa em um labirinto.
As portas que tento abrir estão trancadas.
Vozes distintas embaralham-se em minha mente.
Imploro por socorro...
Estou sozinha.
Crucifixos enfeitam as paredes arranhadas.
Espelhos refletem minha imagem.
Estou destruída!
Sombras se mexem...
Mãos se aproximam em minha direção.
Sinto-me morta.
Não há expressão em meus olhos.
A morte me persegue...
Estou sem forças para continuar a fugir.
Eu me rendo.
Por favor, me leve!

terça-feira, 3 de junho de 2014

Despedida

Olhando-o com os olhos cheios de ternura e dor, repousou suavemente as mãos frias e delicadas sobre sua pele. Inclinou-se cautelosamente e beijou pela ultima vez aquela face que outrora a confortara. O amado dormia como um anjo. Por um instante, sorriu. Lembrou-se dos belos momentos vividos e compartilhados. Mas depois a tristeza inundou sua alma. Seus olhos perderam o brilho e deram lugar às lágrimas. Sabia que não era o certo a fazer, mas que outra escolha teria? Tinha que partir. Ficar agravaria ainda mais a dor. Não sentia merecedora daquele amor. Julgava-se inferior, alguém que nasceu para viver a solidão e sofrer as dores que a vida lhe proporcionava. Sua mente não a libertava da escuridão, do desespero. Não aguentava mais sorrir com o coração dilacerado. Sabia que nunca deixaria de amá-lo. Temia não ser perdoada pelo que estava prestes a fazer. Estava quase inconsciente de tanto pavor que sentia. Subitamente, pegou a faca e cravou em seu peito. Enfim, partiu eternamente.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Que amor?

Seu rosto ardia.
Olhou no espelho e viu a marca de cinco dedos no lado direito de sua face.
Ela chorava.
Seu corpo doía.
Começou a contar as manchas arroxeadas espalhadas pela pele.
Parou.
Não quis mais continuar.
Estava destruída.
Por fora sentia pena de si mesma.
Uma mulher acabada, sem vida.
Por dentro estava completamente abalada.
Quem pensa que as cicatrizes estão somente por fora...
Não sabia como havia chegado a esse ponto.
Como ela pôde deixar de amar a si mesma pelo amor?
Espera. Que amor?
Não, isso não é amor.
Pode ser tudo, menos amor.
Tornou-se uma escrava.
Um objeto.
Que horror!
Não era para ser um conto de fadas?
Não seriam felizes para sempre?
O que está fazendo ali?
Ajudem-na!
Sentia ódio de si mesma.
Olhou para a janela de seu apartamento.
Queria se livrar disso.
Jogou-se do sétimo andar.
Foi fatal.
O assassino? Fugiu.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Final de tarde

A tarde chega ao fim.
Está tudo tão calmo...
O verde das árvores contrasta-se com os dourados raios de sol.
Uma pipa se ergue ao longe.
Posso ouvir as gargalhadas das crianças brincando.
Ouço o som dos pássaros.
Vozes e latidos ecoam...
Eu apenas ouço
E escrevo.
Percebo que na verdade são três pipas no céu.
Elas dançam com a calma melodia do vento.
Ainda posso ver o brilho do sol por entre as árvores.
Os meus olhos também brilham.
Observo tranquilamente.
Há muito barulho...
Tudo acontece ao mesmo tempo.
Um pássaro voa solitário.
As nuvens espalham-se.
O sol está quase se pondo.
Espero paciente para ver o lindo espetáculo.
O verde vivo vai se escurecendo.
Mas ainda vejo algumas folhas douradas.
O sol se esconde.
As luzes da pequena cidade começam a ascender.
A escuridão vem vindo fazer-me companhia.