terça-feira, 1 de setembro de 2015

A rainha do nada

Ela estava descalça, sentada em uma pedra na beira da praia. Balançava os pés e olhava fixamente um horizonte inexistente. As roupas que usava naquela manhã estavam inadequadas para o frio que fazia. Havia passado a noite ali. Duas garrafas vazias de bebida alcoólica estavam abandonadas na areia.
Tremia. Sentia o vento gelado perfurar todo o corpo. Agora ela fitava uma coloração amarelada distante. Em algum lugar o sol estava visível e escaldante. Seria a última vez que iria torturar-se, mas agora deixaria nas mãos da natureza que tanto apreciava. Iria ficar ali o quanto fosse preciso. Queria ver o corpo diluir-se e aos poucos ser levado pelo vento.
Desejava fazer parte daquele imenso azul, cor que sempre gostara. Só não sabia nadar e não pretendia aprender. Os olhos estavam perdidos em algum mundo que neles existia. Talvez estivessem em todos ao mesmo tempo, criando então um novo mundo, infinito e atemporal.
Pensava que o sentimento que nela habitava naquele momento, que também sentira naquelas últimas horas, era o preço a se pagar pela passagem (sem volta) para um lugar jamais explorado, somente destinado a ela. Ainda achava-se significante demais. Acreditava haver um mundo onde fosse a rainha, mesmo sem súditos. Seria a rainha do nada. Do vácuo. Ordenaria mesmo sem o som se propagar.
A correnteza a direcionava para uma queda mortal. Não se esforçava para remar contra. Mesmo com os olhos abertos, o que via não era o ambiente em que fisicamente estava. Formou-se diante de si uma escuridão que se apropriou de tudo que até então havia visto. O silêncio que tanto prezava agora a perturbava e ensurdecia. Só então percebeu que não havia como respirar. Foi perdendo a consciência...

terça-feira, 21 de julho de 2015

Quarta-feira

   Chovia naquela manhã de quarta-feira. Acordou com o barulho do ônibus da escola. Não tinha mais tempo para se arrumar. Virou o corpo para o lado e tentou dormir novamente. Algumas horas depois, acordou com a mãe batendo na porta. Era quase meio-dia. Levantou-se e foi logo almoçar. Cumpriu a lista de tarefas domésticas que a mãe deixara ao sair.
   O tempo estava nublado. A chuva havia parado logo quando levantara. Gostava tanto de assisti-la pela janela... Mas ficou lá debruçado mesmo assim, esperando. Observava as nuvens se movendo naquele denso aglomerado, pesadas. O dia empalideceu-se.
   Estava frio. Decidiu tomar uma xícara de café e voltar para a cama. Queria sonhar e o tempo estava bem apropriado. Uma angústia logo surgir. Ela o confortava. Fitava a janela sob o calor das cobertas. O quarto estava cheio de um nada tão imenso. Dormiu...

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Lá estava eu...

Lá estava eu, no escuro de novo me contorcendo para não esbarrar em nada.
Duas mãos me tocam.
Acariciam-me agressivamente.
Aqueles braços me sufocam.
Eu me solto.
Depois os procuro.
Rejeitam-me.
Sento desolada no chão frio.
Sinto que algo puxa meu cabelo.
Caio bruscamente para trás.
Uma das mãos pega a minha mão direita, fazendo-a tocar um rosto morno.
Ouço batimentos tranquilos em contraste com os meus, que estão agora acelerados.
Não encontro forças para levantar-me.
Em um instante, tudo se acalma.
Não sinto mais o rosto, as mãos e não ouço mais os batimentos.
Um silêncio perturbador preenche o lugar.
Começo a chorar.
Cubro os olhos com as mãos e sinto um vazio surgir, embrulhando meu estômago.
Descubro os olhos subitamente.
O que está agora ao meu redor é um lugar branco.
Não há nada mais que um branco, que quase me cega.
Espera!
O que é aquilo se movendo ali, distante?
Eu corro, corro e corro na direção do estranho ser.
Quanto mais eu corro, mais distante ele parece ficar.
De repente, tudo se escurece.
Apago.
Acordo caída no chão sobre um tecido macio e confortável.
Minha cabeça dói.
Continua escuro.
Ouço passos lentos vindo em minha direção.
O barulho cessa quando sinto uma presença bem perto de onde estou.
Meu rosto é acariciado, delicadamente.
Também levo minhas mãos àquela face desconhecida e a acaricio.
Uma pele lisa, macia e morna.
Calmamente, levo minhas mãos agora ao pescoço.
O aperto firmemente.
Não houve hesitação.
Finalmente, acordo daquele sonho.
E lá estava eu, no escuro de novo me perguntando o que havia acontecido.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Olhos

Aqueles olhos profundos era o que mais me intrigava nela. Havia um abismo preso neles e eu lutava para não cair. Pareciam ter o poder de hipnotizar quem ousava os fitar. Eu não resistia. Preferia sofrer todas as consequências do que ignorá-los e deixar de sentir que algo me dilacerava. Eu gostava daquela dor. Queria sofrer.
Ela me maltratava. Era como estar em uma cadeira elétrica e cada descarga de eletricidade me teletransportava para um novo mundo, desconhecido e irresistível.
Até que, um dia­, os olhos dela mudaram de expressão. Pareciam satisfeitos. Fiquei em estado de choque. Onde estavam aqueles olhos obscuros vindo em minha direção? Ela então disse que, por mim, eles haviam morrido. Nunca me odiei tanto quanto naquele momento. Jamais me perdoarei.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Esboço

Sussurra
Ninguém ouve
Grita
Não percebem
Os toca
Não sentem
Sente
Não se importam
Está
Fingem não ver
O esboço de um corpo insiste em transitar
Está ali
Mas não está
A carne, que é humana, enraivece
Entristece
Porém, a alma
Cigana
Transcendesse

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Tesouro

Ao cortar aquela pele
Não havia órgãos
Havia flores
O ambiente ficou perfumado
E borboletas entraram pela janela
Elas dançavam em volta do corpo
Pareciam ter sede dela
Mas a minha era maior
Costurei-a
E as borboletas se foram
Desconsoladas
Que grande tesouro eu possuía

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Palavras

Trago-lhe, envoltas em um embrulho desgastado, com uma fitinha de seda vermelha, as palavras extraídas do meu coração. Peneirei-as com cuidado, para dizer somente o que é claro. Quero que não faça desfeita e as aceite, mesmo que fiquem na gaveta, esquecidas. Deve haver algumas manchas espalhadas pela carta... São somente as minhas lágrimas, doces e amargas, enfeitando o papel amassado. Trago-lhe também uma rosa. Ela tem um pouco de meu sangue. Perfurei-me com os espinhos. Não doeu tanto quanto tudo que sinto. Não tanto quanto três palavras, quanto uma só frase.